Pauta autoral: comunicação comparada
Olá, sugiro que os colegas de sala façam comparação da maneira como alguns veículos - à escolha - (rádio, TV, revista, internet, jornal) divulgam uma ‘mesma’ notícia.
Eu fiz uma análise de outro assunto (texto abaixo), e sugiro o tema do acidente do ônibus na contramão na Bandeirantes, para fazer a comparação entre vários veículos. Seguem alguns links:
Clica Brasília
G1 - Globo Vídeo
ANALISANDO A COMUNICAÇÃO DOS VEÍCULOS
No intuito de mostrar as diferentes formas como a mídia veicula um mesmo acontecimento, analisei como alguns veículos de comunicação noticiaram o caso Suzane Louise Von Richthofen, condenada pela justiça por ter assassinado seus pais, Marísia e Manfred von Richthofen (2002).
O programa “Fantástico” (TV Globo) de 09 de abril de 2006 apresentou uma entrevista exclusiva com Suzane e até a metade do material exibido os editores da emissora manipularam as imagens para conseguir emoções causando dó na maioria dos telespectadores, apresentando uma pré-adolescente - que na época já era uma mulher de 22 anos - usando blusinha cor-de-rosa, com pássaros em seus ombros, mostrando meiguice, claramente instruída pelos advogados a se vestir e agir assim para passar a imagem de boa menina arrependida, na intenção de criar fatos e situações novas, modificando, indevidamente, o panorama processual.
Mesmo sabendo que a “Revista Veja” (nº 1951, de 12/4/2006) ia publicar também material exclusivo com Suzane na capa usando a mesma roupinha rosa, já que ambas reportagens tinham agenda para entrevistá-la no mesmo dia, a TV Globo exibiu a matéria, pois tinha na manga a apresentação da então considerada “farsa” de Suzane com o advogado a instruindo como ela deveria falar e representar durante a entrevista. Não foi furo, não foi investigação jornalística, foi obra do acaso, pois os editores ao reverem as fitas encontraram as conversas da cliente com seu advogado já que o microfone continuava ligado preso à lapela da roupa da assassina.
No Direito, a relação cliente-advogado é sagrada como o confessionário e a televisão não tinha o direito de invadir a intimidade reservada ao advogado na relação com a cliente. Isso foi quebra de sigilo numa infração ética evidente da emissora que mostrou não se preocupar com as responsabilidades de imprensa divulgando uma farsa e também participando dela, mesmo em forma de denúncia. É nítida a evidência sobre a mídia querer antecipar o espetáculo do julgamento para poder comandá-lo em um grande picadeiro, almejando audiência a qualquer custo e sendo os justiceiros da nação sem se preocupar em explicar o que é verdade e causando o atropelamento do direito de opinião pública tornando cidadãos em pessoas completamente apáticas, numa verdadeira paralisação narcotizante do sentido crítico.
A existência dessa concorrência pela audiência, que acaba causando o abuso de poder e algumas atitudes antiéticas diárias, foi comprovada pela Globo que no dia seguinte sentiu o golpe do furo dado pelo “Domingo Espetacular” ao flagar Suzane Richthofen numa praia de São Paulo, reportagem que levou a Record a ficar dois minutos à frente da concorrente. A chefia do “Fantástico” convocou uma reunião extraordinária da equipe na segunda-feira (dia de folga da maioria da produção do programa) pedindo uma reação urgentemente.
Já a revista Época, no início das reportagens em 2002, rendendo matéria de capa na edição 238 de 09/12/02, fez uma abordagem mais profunda falando das possibilidades emocionais e psicológicas que levaram Suzane ao crime, tentando mostrar isso aos seus leitores sem antes julgarem, mesmo se tratando de um crime hediondo. No meio do caminho, a reportagem tomou outro rumo, passando a imagem de uma Suzane cínica, fria e calculista, certamente por receio da crítica de seus leitores, julgando estar a revista acobertando uma criminosa e criando mais um daqueles clamorosos enganos onde quem estava errado acaba com cara de anjo.
Na rádio CBN, as notícias em torno do assunto foram superficiais, e aconteceu uma matéria de jornalismo opinativo por Arnaldo Jabor que classificava Suzane como um monstro em uma das edições. A maneira que ele fala é totalmente arrogante e achando-se no direito de julgar, como se fizesse parte do júri.
As matérias de Luís Nassif, do jornal Folha de São Paulo (abril 2006), traçam o caminho para analisar a maneira como a mídia fez a cobertura incompleta do caso, questionando: “O que teria levado uma jovem recém-saída da adolescência a planejar a morte dos próprios pais?”. “Será que somos tão diferentes dela?”. Talvez a revista Época tenha chegado perto de uma boa cobertura, como já foi citado, traçando o perfil psicológico e emocional da família e da ex-estudante.
Durante esta pesquisa também identifiquei uma colisão de informações sobre Suzane ter pedido cidadania alemã. Uma delas acontece no portal Globo.com noticiando que Suzane pediu a cidadania para possível fuga a fim de se livrar das acusações, mas a equipe da redação do portal Terra negou essa informação e confirmou isso posteriormente citando a entrevista do juiz Richard Francisco Chequini concedida à Folha de São Paulo.
No caso Suzane foi claramente identificada a mídia advogando para o advogado, cumprindo papel de promotor e júri, jogando na lata do lixo tudo o que um jornalista aprende na faculdade com generosas pitadas de falta de ética em busca de sensacionalismo barato e momentâneo.
Por Gisele Santos